quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Natureza cuida da doença


Eu encontrei na Natureza, na do Mundo, na minha, na dos meus adorados e sempre presentes amigos e na minha querida  família, a coragem e  a força que me ensinaram a olhar de frente a doença e sem medos e com um sempre presente sorriso, desafia-lá para a dura  e desigual batalha que nos estava destinada. Eu acreditei com fé e esperança que iria vencer! 
Ontem, cumpriu-se mais um ciclo de quimioterapia. Desta vez sem motivação e já cansada desta cíclica rotina, chegamos ao Hospital com uma hora de atraso, estava marcada para as 9h00 e eu convencidissima que era às 10h00. O doce Telmo, o enfermeiro já tinha vindo várias vezes à minha procura, esclarecidas as confusões dos horárias, que ainda me valerem uns momentos de descontração, demos inicio à rotina. A picadinha habitual nas minhas poderosas veias, às quais nunca tinha dado o devido valor até me ver confrontada com esta rotina de picas constantes. Retirados uns mililitros do meu doce sangue e segue-se a ansiosa espera de 2 horas pelos resultados. Passou rápido. A minha querida médica, a Dra. Mónica Nave recebeu-me com o seu sempre presente maravilhoso sorriso, como vem sendo hábito partilhámos muito mais do que meros aspectos técnicos da doença. Falámos disto e daquilo, e de simples banalidades. Despeço-me sempre com a coragem tonificada para continuar a dura batalha. Ontem mais que uma coragem tonificada despedi-me cheia de uma doce e já muito ansiada pontinha de felicidade.  Surpreendida com uma certeza, que a Dra. Mónica teimou em afirmar, perante todas as minhas objecções, o meu cancro desapareceu com as 3 sessões anteriores. Afirmou com uma certeza inquestionável, o que observa em mim,  não uma doente curada, mas um cancro em remissão. Embora este meu débil corpo tenha reagido surpreendemente tão bem, o tratamento vai seguir o seu curso. Cumprem-se mais dois ciclos de quimioterapia. Um mamilo envaginado e um minúsculo peito e a certeza de uma mastectomia. Mantenho também a esperança numa certeza, a de que no meu peito venham a florir duas, sim duas, duas doces mamas que dêem jus ao nome e se afirmem como um símbolo de feminilidade. Com a coragem e a felicidade de mãos dadas enfrentei as três horas seguintes de quimioterapia, mais tranquila e serena do que nunca.
Foi com essa tranquilidade e serenidade que transportei na alma os efeitos colaterais que se vão fazer sentir durante estes próximos dias. Cansaço, afrontamentos, dores no corpo, dores nos ossos, cabeça a estourar, mau humor, falta de paciência ...e sabe-se lá o que pode mais  aparecer ... e vai ser assim, sempre a somar, até à próxima semana. Mas eu estou preparada, pois também sei que docemente a minha energia e qualidade de vida, a única possível neste cenário, começará a brindar-me lentamente!


‎"A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a Natureza cuida da doença" Voltaire


Acredito na medicina mas acredito ainda mais na Natureza, na do Mundo que me ilumina os meus dias, na minha que me dá uma atitude positiva em relação à doença, na dos meus amigos que todos os dias me enchem de força e coragem, na minha família que é a essência da Natureza! 
O meu tratamento vai seguir o seu curso, mas com a certeza de um Final Feliz! 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mamas! ...para que vos quero?

Os doces seios. Símbolo de feminilidade, seja quando evoca a mulher como fonte de vida e alimento, seja quando a evoca como fonte de prazer, afecto e aconchego. Os meus doces seios, talvez porque nunca os adorei, indignaram-se. Indignaram-se e traíram-me. Os mesmos que se negaram a colorir a minha feminilidade, tímidos nunca ganharam cor nem forma. Os mesmos que quando invocados à vida se retraíram, teimosos negaram alimentar. Sem mais vontade ignorei-os. Privada de resposta, questionei. Mamas? ...para que vos quero?. Em vagos pensamentos considerei que, um dia, poderia, com o poder do bisturi, restituir-lhes a cor e forma, livra-los da sua timidez e teimosia. Mas os meus tímidos e teimosos seios, talvez cansados da sua futilidade, refutaram. Agora, mais unidos do que nunca e em pura harmonia, enfrentamos juntos o inimigo com a indubitável certeza de que na Primavera será cumprido o desígnio. Num corte incisivo, o poderoso bisturi dará o golpe e ficaremos livres. No teu vazio vou plantar uma flor que vai florir, colorir e dar forma ao meu peito. Para trás, vou deixar a doce recordação dos seios que desde sempre se recusaram a ser um símbolo de feminilidade. 


domingo, 8 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fora da escala

Não há voltas a dar. Estou efectivamente fora da escala. Vivo um dia de cada vez, não como se do último se tratasse, mas porque tenho que tornar eternos os pequeninos momentos dos meus grandes dias. Sinto já em mim uma necessidade premente de uma reflexão sobre o Ano Novo que agora iniciou o seu doce e longo caminho. E é à luz dessa reflexão que me sinto assim, fora da escala. 
Fora da realidade, fora da normalidade, fora da sociedade. Sem me deixar respirar as primeiras lufadas do doce ar do Novo Ano, a minha realidade afirma-se imediatamente. Os dois primeirinhos dias no Ano passados a penar. O corpo a implorar por um banal conforto, a cabeça prestes a rebentar e os afrontamentos a impedir-me de dar descanso à dor. A minha normalidade traduz-se no permanente cansaço, que necessita de descansar com frequência, para estar preparado para alguma mazela que resolva aparecer sem avisar, como foi o caso das minhas veias, que começaram a queixar-se, nuns gritos mudos ensurdecedores, das sucessivas picadas da quimioterapia. Para se juntar a esta normalidade também apareceu uma diarreia, vinda sabe-se lá de onde, salvo seja, sendo eu obstipada por natureza. 
Na sociedade declaro-me como doente oncológica, desempregada de baixa. Indesejada, na indesejada crise, não me é conferido o direito à procura activa de trabalho. Permaneço, enquanto os demais saem pela manhã, tornam efectivos os seus objectivos,  desenvolvem os seus projectos, cumprem as suas tarefas, partilham sentimentos e experiências. Eu limito-me a permanecer, simplesmente! Na avida tentativa de redescobrir o devido conforto que me foi retirado, assim sem mais nem menos.  Na busca veemente de uma nova aprendizagem que me permita viver os meus dias fora da escala com normalidade. Como o sábio Mestre, a altiva Vida tem me ensinado a ser genuinamente Feliz, sem motivo aparente para o ser. Ensinado a valorizar tudo o que tenho como inestimável. A tornar raros e genuínos todos os pequeninos e  banais momentos do meu dia. No meu universo ainda me resta o meu intimo. Onde posso mergulhar, sempre que quiser, insistir na busca. Do indicio, da resposta que me permite continuar a viver docemente fora da escala.