Eu tinha um plano! Um plano para te receber, doce Primavera, de braços abertos e com um rasgado sorriso, corria na tua tão ansiada direcção, de mãos dadas com a vida, de pazes feitas com o corpo, feliz e confiante! Mas tu repostas! Repostas com o teu outro aroma! Aquele que me invadiu a alma, naquele outro Outubro! Acredito que é só o aroma. Um aroma que se vai dissipar ao sabor da brisa da manhã. Acredito numa outra Primavera, que renascerá, triunfante.
Quero manter na alma, este doce aroma Primaveril da vida. Como o alquimista que dá alma ao seu perfume, espero também conseguir perfumar a alma de outras mulheres, que como eu travam uma dura batalha contra o Cancro da Mama.
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segunda-feira, 18 de março de 2013
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Agradecida? ...não! Resignada? ...talvez!
Passou-se um mês. Um mês de muita tormenta e lamuria. Um mês em que muitas questões deambularam, pertinentes, pela minha mente. A resposta permaneceu sempre na revolta, na angústia, na raiva. Andei zangada, muito zangada, sem forças, nessa que foi mais uma luta. Uma luta contra uma pneumonia, em luta com sentimentos adversos, em luta com questões pertinentes. Quando se defende que, nós sobreviventes de cancro, devemos estar agradecidos, eternamente agradecidos, agradecidos por estarmos vivos. Eu questiono, questiono e pergunto a quem e porque que razão devo agradecer por ter sido envenenada com a milagrosa quimioterapia, por me ter sido cortado um peito e terem sido tirados 18 gânglios que me deixaram com um braço que para pouco me serve, por ter sido queimada durante 25 sessões de radioterapia, por ter que tomar um comprimido durante 5 anos que me pode provocar cancro nos ovários. Também me devo sentir agradecida pelas dores que senti nos ossos? pela falta de mobilidade no braço? pelo cabelo que caiu? pelo cansaço descomunal? pelos afrontamentos que me tiram o sono? pela falta de qualidade de vida? pela falta de conforto? por estar desempregada? Já não estou zangada nem revoltada, estou lúcida e resignada. Estou curada da pneumonia e começo a sentir algum do conforto que me tem vindo fugir deste que começou este fandango.
Mas agradecida? Por estar viva? Não! A vida é um direito, um direito que me é devido, pelo qual eu tenho que lutar, todos os dias.
Resignada? ...talvez. Agradecida? ...não.
Resignada? ...talvez. Agradecida? ...não.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Retalhada
Algures no tempo uma pequenina célula do meu corpo desnorteou-se e transformou a minha vida num carrossel de emoções. Começou, imediatamente, por me apresentar, face to face, a ansiedade, a dúvida, a incerteza. Depois passei a andar de mãos dadas com a fé, a esperança e a coragem. Percorri vales e montanhas penando nas subidas e revigorando-me nas verdes planícies. Pelo caminho, pintei telas de sofrimento, amargura e por vezes raiva mas segui em frente. A muito custo fui substituindo as cores e a tela foi ganhado vida. Ainda não está concluída, mas acredito. Acredito que esta tela só vai ser pincelada nos tons do amor e da vida. Por agora resta-nos esperar mais um pouco. Mais dois dias, até segunda feira, às 20h00. Às mãos do homem o meu corpo vai ser retalhado. Nestes dias não tenho conseguido verbalizar o que sinto na alma. São sentimentos estranhos nunca antes sentidos. Será um cocktail de ansiedade servido com uma impotente e tranquila cereja? A certeza assenta numa doce tranquilidade. A dúvida na ansiedade. A minha convicção? Reside no bisturi que me vai retalhar, não o peito, mas a alma.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Na agonia da doença
O que sinto na alma não se espelha nas palavras que verbalizo.
O que sinto na alma ganha vida nos apertados gritos mudos que se engrandecem espontaneamente.
Carrego em mim a insustentável leveza da agonia que teima em atormentar os meus dias, que dá luz aos meus suspiros e que procura desesperadamente conforto no meu espírito
Traída pelo forte abraço da doença, que fria e impiedosamente me mantém refém, refuto com um grito silencioso. Sinto-te a deambular pela minha alma, tentando firmar raízes como quem crava estacas. Seduzes-me com uma coroa de espinhos, mas eu, com um toque mágico transformo-a num elegante chapéu florido e caminho pela doce verdura da manhã, evocando as musas e cantando a vida.
No meu doce e árduo caminho, vou parando e desafio-te para comemoramos a vida, numa valsa rodopiante brindo ao Amor, com Força, com Coragem, com Esperança. E tu, não aguentas a dança da Vida!… enfadada, padeces no chão! Eu continuo o meu caminho. cantando o hino da Vida com alegria e emoção.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Uma nova consciência num rosto desconhecido
Num rosto já desvirtuado, que desconheço, contemplo o mais belo entardecer de que tenho memória, ao longe o rio calmo e sereno reflecte o meu estado de espírito, feliz e tranquilo. Sinto cada aroma que me chega, como se de uma revigorada fonte se tratasse, onde absorvo com subtileza o mais puro néctar da vida. Na memória de um doce dia Primaveril, cai a noite, envolta nos seus mistérios, mais tranquila e serena do que nunca, abraça-me com força.
As estrelas no firmamento estão mais brilhantes e cintilantes, parecem estar lá, com o único propósito de iluminam o meu caminho, como musas inspiradoras.
Com um sorriso atrevido afirmo o meu bem estar único, que este dia salpicado de sol me brindou. Vivo intensamente estes sentimentos que me invadem numa rara perspectiva de beleza.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Os minutos das minhas horas
Desde algum tempo que pensava em começar a escrever um blog, registos disto, daquilo e de banalidades puras. Em tom de diário de adolescente dotado de uma dualidade antagónica onde expunha os meus mais secretos suspiros à luz de todos!!
Mas fui adiando! ... Foi no limiar dos meus minutos se terem tornado mais longos que as minhas horas que me dediquei de corpo e alma a tornar real este blog. Tão real, como as horas que vivo nas dores que já me tolhem o corpo. Estas dores que tornaram mais longos os meus minutos, combatem sem piedade este inimigo. Experimento a desconforme batalha ao mesmo tempo que busco o conforto num desafiante registo de estados de alma. Tento desafiar os meus sentimentos em busca da resposta. Nos minutos das minhas horas, dia após dia, vou colorindo este blog, exprimindo os sentimentos e a agonia da doença. Vou continuar a aninhar-me nos braços reconfortantes dos blogs de outras valentes guerreiras, que me acarinharam desde o meu primeiro minuto tornarando-o mais sustentável.
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