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terça-feira, 18 de setembro de 2012

O que é verdadeiramente importante?


Foi durante o mês de Setembro, do passado ano, que com uma rotineira ida ao médico, começou este fandango. Tentei, a bem ou a mal, partilhar aqui um bocadinho, o testemunho na primeira pessoa do que realmente significa ter cancro. Muito foi dito e tudo mais ficou por registar. O primeiro baque, ter que contar à família, aos amigos. O turbilhão de sentimentos, medo, angustia, revolta, raiva, força, esperança, coragem, fé. Tudo à mistura, um verdadeiro cocktail. O tratamento que se revelou a doença nos efeitos secundários, mas a cura na sua verdadeira essência. Acreditar sempre com muita coragem e com o apoio incondicional da minha família e dos meus amigos foi sem dúvida as minhas aliadas e poderosas armas nesta fatídica luta. Passei por grandes momentos de depreciação, sobretudo na consciência que existia uma vida paralela à minha. A minha estava ali, estanque, naquele campo murado pela enfermidade. A outra, a do lado de fora dos meus muros, seguia o seu caminho, acontecia, jovial. Enquanto ali permaneci tive um porquê por companhia. Hoje, sinto que estou próximo, muito próximo de o descobrir. O porquê. Aquele porquê que durante este tempo todo me acompanhou no pensamento, de mansinho. A resposta, vou descobri-la no que é verdadeiramente importante.  No que é verdadeiro. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A passo lento e firme, em direcção à meta!

Tartaruguinha! Ultimamente, sinto-me assim!  Devagar, devagarinho! ...a passo lento e firme, em direcção à meta. Sem pressa, mas determinada! Sem inspiração para grandes dissertações, mas com convicção.  Devagar, vou caminhando nestes meus lentos dias, que já nada de novo me trazem. Fecharam-se numa rotina sem igual, sem me permitirem qualquer hipótese de escolha. O caminho é sempre em frente, e é para lá que eu sigo, de olhos bem abertos, sem olhar para o lado, sem direito a distracções. Como a doce tartaruguinha, a quem a paciência já ensinou grandes lições, também eu vou, passo a passo, derrubando muralhadas e conquistando vitórias. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mamas! ...para que vos quero?

Os doces seios. Símbolo de feminilidade, seja quando evoca a mulher como fonte de vida e alimento, seja quando a evoca como fonte de prazer, afecto e aconchego. Os meus doces seios, talvez porque nunca os adorei, indignaram-se. Indignaram-se e traíram-me. Os mesmos que se negaram a colorir a minha feminilidade, tímidos nunca ganharam cor nem forma. Os mesmos que quando invocados à vida se retraíram, teimosos negaram alimentar. Sem mais vontade ignorei-os. Privada de resposta, questionei. Mamas? ...para que vos quero?. Em vagos pensamentos considerei que, um dia, poderia, com o poder do bisturi, restituir-lhes a cor e forma, livra-los da sua timidez e teimosia. Mas os meus tímidos e teimosos seios, talvez cansados da sua futilidade, refutaram. Agora, mais unidos do que nunca e em pura harmonia, enfrentamos juntos o inimigo com a indubitável certeza de que na Primavera será cumprido o desígnio. Num corte incisivo, o poderoso bisturi dará o golpe e ficaremos livres. No teu vazio vou plantar uma flor que vai florir, colorir e dar forma ao meu peito. Para trás, vou deixar a doce recordação dos seios que desde sempre se recusaram a ser um símbolo de feminilidade. 


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fora da escala

Não há voltas a dar. Estou efectivamente fora da escala. Vivo um dia de cada vez, não como se do último se tratasse, mas porque tenho que tornar eternos os pequeninos momentos dos meus grandes dias. Sinto já em mim uma necessidade premente de uma reflexão sobre o Ano Novo que agora iniciou o seu doce e longo caminho. E é à luz dessa reflexão que me sinto assim, fora da escala. 
Fora da realidade, fora da normalidade, fora da sociedade. Sem me deixar respirar as primeiras lufadas do doce ar do Novo Ano, a minha realidade afirma-se imediatamente. Os dois primeirinhos dias no Ano passados a penar. O corpo a implorar por um banal conforto, a cabeça prestes a rebentar e os afrontamentos a impedir-me de dar descanso à dor. A minha normalidade traduz-se no permanente cansaço, que necessita de descansar com frequência, para estar preparado para alguma mazela que resolva aparecer sem avisar, como foi o caso das minhas veias, que começaram a queixar-se, nuns gritos mudos ensurdecedores, das sucessivas picadas da quimioterapia. Para se juntar a esta normalidade também apareceu uma diarreia, vinda sabe-se lá de onde, salvo seja, sendo eu obstipada por natureza. 
Na sociedade declaro-me como doente oncológica, desempregada de baixa. Indesejada, na indesejada crise, não me é conferido o direito à procura activa de trabalho. Permaneço, enquanto os demais saem pela manhã, tornam efectivos os seus objectivos,  desenvolvem os seus projectos, cumprem as suas tarefas, partilham sentimentos e experiências. Eu limito-me a permanecer, simplesmente! Na avida tentativa de redescobrir o devido conforto que me foi retirado, assim sem mais nem menos.  Na busca veemente de uma nova aprendizagem que me permita viver os meus dias fora da escala com normalidade. Como o sábio Mestre, a altiva Vida tem me ensinado a ser genuinamente Feliz, sem motivo aparente para o ser. Ensinado a valorizar tudo o que tenho como inestimável. A tornar raros e genuínos todos os pequeninos e  banais momentos do meu dia. No meu universo ainda me resta o meu intimo. Onde posso mergulhar, sempre que quiser, insistir na busca. Do indicio, da resposta que me permite continuar a viver docemente fora da escala.