E já está! Despedimos-nos minha querida Lady Quimio, espero que não mais os nossos caminhos se cruzem! Agora vou procurar aninhar-me no doce conforto, nesta que será a minha última ressaca, só mais um bocadinho e já está. Capitulo encerrado e rapidamente outro terá início. Como me iludi! Na despedida, deste-me um beijo fútil e traiçoeiro, em grande estilo! O meu débil corpo refuta e o mercúrio denúncia a presença de um estranho calmamente a passear-se. O mercúrio oscila e eu vacilo. E tem sido assim, desde domingo! Febre, que de ti apenas me recordo o nome, pois de te sentir na pele, só uma vaga e longínqua memória. Por enquanto é só a folha do capitulo, que por ser a última, teimosa, não quer virar! Na longa espera, sentada no receio de uma promessa de internamento, temi! Confesso, não sei por quê ao certo, mas temi! Fechei os olhos e imaginei-me numa praia de areia branca, banhada por água cristalina onde mergulhei e nadei com os golfinhos .... de repente oiço: vai para casa tem glóbulos brancos para dar e vender, vai é tomar antibióticos! ... e percebi! Percebi que às vezes a folha não quer virar, só por mera teimosia.
Quero manter na alma, este doce aroma Primaveril da vida. Como o alquimista que dá alma ao seu perfume, espero também conseguir perfumar a alma de outras mulheres, que como eu travam uma dura batalha contra o Cancro da Mama.
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quarta-feira, 7 de março de 2012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Ampulheta do tempo, caprichosa!
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Ampulheta do tempo, caprichosa! Um grão de areia de cada vez, a contar os momentos dos meus dias! Três longos meses se passaram, grão a grão, e que se adivinhavam difíceis desde o primeiro grão. Cinco sessões de quimioterapia cumpridas acompanhadas de dias de agonia que me arrebataram a alma e tornaram cinzentos os meus solarengos dias. A espera agora é mais tranquila, a última sessão de quimioterapia, é já na próxima quarta-feira. Só mais um pouco, e cai o último grão. Depois, a ampulheta caprichosa fará cumprir o seu intento e dará mais uma volta!
A cada sessão de quimioterapia empunhei uma poderosa arma, uma associação de drogas, protocolo TAC (Taxotere, Adriamicina,Ciclofosmida). Refastelada naquela poltrona durante 3 horas, recebi gota a gota, o destemido "soro" que percorreu as minhas veias com o único objectivo de destruir as células tumorais. Claro está que na sua passagem, varreu tudo o que lhe apareceu pela frente, células más e boas.
Para ajudar a recuperar as células boas, mais concretamente na prevenção da neutropénia (que consiste na diminuição de neutrófilos no sangue), outra arma de arremesso, a minha doce amiga peg-filgrastin, (administrada 24 horas após a quimioterapia por via subcutânea) lá punha a minha medula óssea a trabalhar, a produzir glóbulos brancos, a recuperar as minhas células boas. Mas com tanto esforço quem sofreu fui eu, pois que os ossos também não trabalham de graça e fartaram-se de se queixar do trabalho em excesso. O cabelo e outros parentes, nem esperaram para contar como foi, logo de início, foi um ar que lhes deu e de malas aviadas foram-se. Ficou por cá a agonia, o mal estar geral, as dores no corpo, nos ossos, nos músculos, a cabeça zonza e a grande novidade, os afrontamentos, esses nunca mais me largaram. Não me posso queixar do que mais temia, os enjoos, esses não quiseram nada comigo, felizmente. Mas como recompensa tive o prazer de conviver mano a mano com uma mucosite (inflamação da mucosa - revestimento das cavidades naturais, mais comum no tubo digestivo) e posso afirmar que não foi lá muito agradável, aliás nada mesmo. Aconteceu-me na quarta sessão, e penei cumó caneco! Com medicação adequada prescrita pela minha médica e uns bochechos - produto fornecido pelo hospital a mucosite acalmou. Ganhei três quilos. Sim, ganhei! Porque ao alto do meu 1,80 m juntar três quilos aos meus frágeis 54 é uma dádiva. Como não há bela sem senão, a minha médica já me advertiu, não quer que eu engorde mais, não por questões estéticas, mas porque o cancro alimenta-se de açúcar, o que é um facto.
Agora só me resta esperar, só mais um pouco, até que caia o último grão de areia, da caprichosa ampulheta! A cada grão de areia, fui revelando em mim serenidade para aceitar a doença e coragem para combatê-la.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
A Natureza cuida da doença
Eu encontrei na Natureza, na do Mundo, na minha, na dos meus adorados e sempre presentes amigos e na minha querida família, a coragem e a força que me ensinaram a olhar de frente a doença e sem medos e com um sempre presente sorriso, desafia-lá para a dura e desigual batalha que nos estava destinada. Eu acreditei com fé e esperança que iria vencer!
Ontem, cumpriu-se mais um ciclo de quimioterapia. Desta vez sem motivação e já cansada desta cíclica rotina, chegamos ao Hospital com uma hora de atraso, estava marcada para as 9h00 e eu convencidissima que era às 10h00. O doce Telmo, o enfermeiro já tinha vindo várias vezes à minha procura, esclarecidas as confusões dos horárias, que ainda me valerem uns momentos de descontração, demos inicio à rotina. A picadinha habitual nas minhas poderosas veias, às quais nunca tinha dado o devido valor até me ver confrontada com esta rotina de picas constantes. Retirados uns mililitros do meu doce sangue e segue-se a ansiosa espera de 2 horas pelos resultados. Passou rápido. A minha querida médica, a Dra. Mónica Nave recebeu-me com o seu sempre presente maravilhoso sorriso, como vem sendo hábito partilhámos muito mais do que meros aspectos técnicos da doença. Falámos disto e daquilo, e de simples banalidades. Despeço-me sempre com a coragem tonificada para continuar a dura batalha. Ontem mais que uma coragem tonificada despedi-me cheia de uma doce e já muito ansiada pontinha de felicidade. Surpreendida com uma certeza, que a Dra. Mónica teimou em afirmar, perante todas as minhas objecções, o meu cancro desapareceu com as 3 sessões anteriores. Afirmou com uma certeza inquestionável, o que observa em mim, não uma doente curada, mas um cancro em remissão. Embora este meu débil corpo tenha reagido surpreendemente tão bem, o tratamento vai seguir o seu curso. Cumprem-se mais dois ciclos de quimioterapia. Um mamilo envaginado e um minúsculo peito e a certeza de uma mastectomia. Mantenho também a esperança numa certeza, a de que no meu peito venham a florir duas, sim duas, duas doces mamas que dêem jus ao nome e se afirmem como um símbolo de feminilidade. Com a coragem e a felicidade de mãos dadas enfrentei as três horas seguintes de quimioterapia, mais tranquila e serena do que nunca.
Foi com essa tranquilidade e serenidade que transportei na alma os efeitos colaterais que se vão fazer sentir durante estes próximos dias. Cansaço, afrontamentos, dores no corpo, dores nos ossos, cabeça a estourar, mau humor, falta de paciência ...e sabe-se lá o que pode mais aparecer ... e vai ser assim, sempre a somar, até à próxima semana. Mas eu estou preparada, pois também sei que docemente a minha energia e qualidade de vida, a única possível neste cenário, começará a brindar-me lentamente!
"A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a Natureza cuida da doença" Voltaire
Acredito na medicina mas acredito ainda mais na Natureza, na do Mundo que me ilumina os meus dias, na minha que me dá uma atitude positiva em relação à doença, na dos meus amigos que todos os dias me enchem de força e coragem, na minha família que é a essência da Natureza!
O meu tratamento vai seguir o seu curso, mas com a certeza de um Final Feliz!
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Momentos
Difíceis! São estes os momentos da minha vida.Custam a passar, mas deixam-me na alma um doce sabor, pois sei que, apesar de difíceis, são estes momentos que me fazem sentir cheia de vontade de correr e ir mais além, lutando sempre! Não é fácil, não existem fórmulas mágicas. Cintila no meu íntimo um véu translucido que anuncia uma realidade dissimulada por esta audaz vontade de vencer.
Três dias após a terceira sessão de quimioterapia e sinto em mim um já insuportável cansaço deste permanente cansaço, desta cruel doença que se instalou na minha vida, que me aprisionou e que sei que mesmo com muita vontade de correr e ir mais além, ficarei para para sempre com uma cicatriz na alma, apesar da ferida no meu corpo sarar. Estou ansiosa pela chegada da Primavera, para ser operada, para que tudo termine. Ingenuidade minha, puro engano meu. Vou precisar de tonificar permanentemente as minhas forças, todos os dias da minha vida, para poder continuar docemente o meu caminho. Sei que vou conseguir com minha força de espírito, com o meu equilíbrio emocional, com o carinho da minha família e dos meus amigos, com os constantes elogios que recebo, de rostos desconhecidos, sobre a minha postura tão positiva em relação à doença. Revelo em mim uma "naif" que agora dotada de uma ávida lucidez vai aos poucos esbarrando com a realidade da doença.
Três dias após a terceira sessão de quimioterapia e sinto em mim um já insuportável cansaço deste permanente cansaço, desta cruel doença que se instalou na minha vida, que me aprisionou e que sei que mesmo com muita vontade de correr e ir mais além, ficarei para para sempre com uma cicatriz na alma, apesar da ferida no meu corpo sarar. Estou ansiosa pela chegada da Primavera, para ser operada, para que tudo termine. Ingenuidade minha, puro engano meu. Vou precisar de tonificar permanentemente as minhas forças, todos os dias da minha vida, para poder continuar docemente o meu caminho. Sei que vou conseguir com minha força de espírito, com o meu equilíbrio emocional, com o carinho da minha família e dos meus amigos, com os constantes elogios que recebo, de rostos desconhecidos, sobre a minha postura tão positiva em relação à doença. Revelo em mim uma "naif" que agora dotada de uma ávida lucidez vai aos poucos esbarrando com a realidade da doença.
2012 Ano Novo que estás prestes a chegar!
Quero iniciar o Novo Ano com estes sentimentos bem presentes na alma, encenando a dura realidade dos atos vividos neste genuíno palco da vida!
Desafio todos a um doce brinde para derrubar as dificuldades do Novo Ano que está para chegar!
Que em 2012 consigamos correr e chegar mais além!
Que tenhamos a habilidade de tornar fortes os momentos mais frágeis!
São estes os mais puros e singelos votos que desejo a todos. Aproveito também para vos recordar que é imperativo uma boa noite de Passagem de Ano com uma boa dose de alegria, divertimento, boa disposição e um, à partida já absolvido, excesso!!
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
O carrossel deu mais uma volta!
Cheguei ao Hospital pelas 10h00 da manhã, terça-feira, dia 6 de Dezembro, para a tão ansiada 2.ª sessão de quimioterapia. Na véspera fiz as análises de rotina e a consulta de oncologia. Estava tudo bem com os valores das análises, e a boa surpresa, a minha massa tinha diminuído bastante com a 1.ª sessão. A doce Inês, a dedicada enfermeira, recebeu-me mais uma vez com o seu meigo sorriso. Na partilha das conversas que mantivemos, durante as visitas que me fez ao longo das três horas que passei naquele acolhedor quartinho, fez-me sentir como se eu fosse a única paciente. Lembrava-se de cada desabafo meu da anterior sessão, ocorrida à 3 semanas atrás, como se tivesse acontecido na véspera.
O meu anjinho, que me acompanhou, na minha tão temida, primeira sessão de quimioterapia, também lá estava, sentadinho ao meu lado, estendeu-me a sua mãozinha. Juntos, demos o passeio no carrossel colorido e luminoso.
Carrossel de emoções que transportas a minha alma para uma vale encantado, rebolo no imenso campo florido, absorvo todos os aromas da natureza, sinto o singelo canto do rouxinol e a doce fragrância da brisa matinal... Mal dou por mim e a viagem de carrossel terminou!
A realidade silenciou a minha fantasia! O caminho a percorrer ainda é longo!
Sai do hospital, depois das calorosas despedidas com sentidos votos de feliz Natal, visivelmente cansada e ligeiramente enjoada. Rapidamente ordenei ao meu cérebro que emitisse uma ordem ao meu corpo: cansaço aguento, enjoo não, não e não! Sempre acreditei que o poder da mente é superior.... e desta vez não me deixou ficar mal. Depois de uma revigorada noite de sono, acordei sentindo uma doce e fatigante energia!
Doce cansaço que permaneces em mim pelo combate feroz que travas com o inimigo, tornas os meus dias mais serenos e tranquilos, com uma revigorada esperança num Final Feliz!
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Conduzida por um Anjo
A demora do tempo que me embalou neste ultimo mês foi muito dura, mas muito reveladora. Dia a após dia senti-me conduzida por um Anjo, que me abriu as portas da minha alma, deixando engrandecer toda a minha essência, dando-me força e coragem suficientes, para que com um sempre presente sorriso, combater este estranho que sem pedir licença, se instalou na minha vida. Obrigada meu Anjo por te sentares a meu lado. Deste-me a tua mãozinha, na minha primeira tão temida, sessão de quimioterapia. Quando sai do hospital senti-me mais viva. Com a indubitável certeza de que quanto mais eu sentir o doce aroma primaveril, mais tu temível Cancro da Mama, vais padecer até de reduzires a nada. Muitas mais letras irei juntar para continuar a desenhar, este retrato tão duro e desigual, mas vou manter bem firme a convicção de escrever sempre nos tons do arco iris.
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