Não há voltas a dar. Estou efectivamente fora da escala. Vivo um dia de cada vez, não como se do último se tratasse, mas porque tenho que tornar eternos os pequeninos momentos dos meus grandes dias. Sinto já em mim uma necessidade premente de uma reflexão sobre o Ano Novo que agora iniciou o seu doce e longo caminho. E é à luz dessa reflexão que me sinto assim, fora da escala.
Fora da realidade, fora da normalidade, fora da sociedade. Sem me deixar respirar as primeiras lufadas do doce ar do Novo Ano, a minha realidade afirma-se imediatamente. Os dois primeirinhos dias no Ano passados a penar. O corpo a implorar por um banal conforto, a cabeça prestes a rebentar e os afrontamentos a impedir-me de dar descanso à dor. A minha normalidade traduz-se no permanente cansaço, que necessita de descansar com frequência, para estar preparado para alguma mazela que resolva aparecer sem avisar, como foi o caso das minhas veias, que começaram a queixar-se, nuns gritos mudos ensurdecedores, das sucessivas picadas da quimioterapia. Para se juntar a esta normalidade também apareceu uma diarreia, vinda sabe-se lá de onde, salvo seja, sendo eu obstipada por natureza.
Na sociedade declaro-me como doente oncológica, desempregada de baixa. Indesejada, na indesejada crise, não me é conferido o direito à procura activa de trabalho. Permaneço, enquanto os demais saem pela manhã, tornam efectivos os seus objectivos, desenvolvem os seus projectos, cumprem as suas tarefas, partilham sentimentos e experiências. Eu limito-me a permanecer, simplesmente! Na avida tentativa de redescobrir o devido conforto que me foi retirado, assim sem mais nem menos. Na busca veemente de uma nova aprendizagem que me permita viver os meus dias fora da escala com normalidade. Como o sábio Mestre, a altiva Vida tem me ensinado a ser genuinamente Feliz, sem motivo aparente para o ser. Ensinado a valorizar tudo o que tenho como inestimável. A tornar raros e genuínos todos os pequeninos e banais momentos do meu dia. No meu universo ainda me resta o meu intimo. Onde posso mergulhar, sempre que quiser, insistir na busca. Do indicio, da resposta que me permite continuar a viver docemente fora da escala.

